
As motocicletas, os mitos e a música
Por Carlos Dias Lopes
Elas começaram a fazer barulho no cinema em 1953, numa
produção da Columbia Pictures, guiadas pelas
mãos de ninguém menos que Marlon Brando. Uma
Triumph Thunderbird 6T ano 1950 ajudou a consolidar o apelo
de Brando junto ao público juvenil com a exibição
do clássico The Wild One (O Selvagem). Detalhe,
a Triumph pertencia ao próprio ator americano, que
costumava chegar ao set de filmagem em cima da hora, conduzindo
sua máquina, que durante as tomadas já estava
com o motor suficientemente quente para complementar o irrefreável
Johnny, personagem que ajudou a tornar cult a figura
de Brando.
Cinqüenta anos depois, elas regressariam às telas
triunfantes, carregando outro mito. Em 2004, Gael Garcia Bernal
revivia no lombo de uma cambaleante Norton 500 ano 1939, a
odisséia do icônico Ernesto Che Guevara. Mais
ou menos pela época das filmagens de O Selvagem, o
então imberbe estudante de Medicina argentino deixara
os ideais pequenos burgueses da família para ir dar
de cara com a crua realidade de miséria e sofrimento
humano nas curvas da América Latina. Uma das imagens
mais tocantes do making of de Diários
de Motocicleta é a carona que Bernal dá
numa réplica da Norton original ao octagenário
Alberto Granado, companheiro de Che na viagem e dono da motocicleta
que os levara ao mesmo tempo aos paraísos e ao inferno
da América.
Entre
um feito histórico e outro – 35 anos antes da
saga da viagem de Che ser revivida e 16 depois do proto punk
estrelado por Brando ter influenciado uma geração
–, as motocicletas tiveram mais momentos de glória,
apesar de no final, no caso em questão, terem sucumbido
junto com seus condutores sob os disparos da intolerância.
Um road movie em essência, Easy Rider
marcou cinematograficamente o fim de uma era, e o começo
de outra. A liberdade que as mitológicas Harley-Davidsons
(foram usadas nas filmagens quatro modelos chopper uma 1950,
duas 1951 e uma 1952) ajudaram a tornar palpável nas
grandiloqüentes imagens do filme de 1969 – era
abatida por tipos broncos a bordo de avassaladoras caminhonetes,
dessas que hoje ocupam dois terços de uma pista e têm
quase a altura de um ônibus.
Mas neste ponto do caminho o caro internauta deverá
estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com música.
Na verdade, trata-se de um aquecimento de motores para entrar
de "punho esticado" na trilha sonora de Easy
Rider. Pois não seria exagero algum debitar à
trilha do filme parcela razoável de contribuição
ao estrondoso êxito que a modesta produção
alcançou, dando grande retorno artístico e financeiro
aos realizadores/atores Peter Fonda e Dennis Hopper.
Além das motocicletas, junto com as maravilhosas locações
do filme, em que dois outsiders (Fonda e Hopper) viajam os
Estados Unidos de Oeste para Leste cortando ilimitadas e intocadas
paisagens; a música é um importante fator simbólico
a sustentar a ânsia por liberdade que permeia a odisséia
de Wyatt e Billy. Na escolha da trilha, os produtores foram
covardes, já que nada menos que cinco das dez faixas
que viraram um disco lançado pela Universal Music são
de autoria de grupos ou artistas que estavam simplesmente
no auge de suas carreiras em 1969. É o caso do Steppenwolf,
dos Byrds, de Jimi Hendrix e de Bob Dylan.
O
disco abre com a malemolente batida de The Pusher,
do Steppenwolf, cuja letra literalmente amaldiçoa os
vendedores de qualquer droga, e que no filme introduz a paranóia
dos personagens, que escondem o dinheiro da viagem (financiada
por um rolo com cocaína) dentro dos tanques de suas
motocicletas. The Pusher acaba soando como um comentário
premonitório ao final trágico do filme. Na seqüência,
o disco engata com Born to Be Wild, sobre a qual
se pode dizer que nenhum outro rock alcançou tamanha
simbiose entre sua batida e o funcionamento industrial de
um motor. É um pistão trabalhando sem parar
que até hoje rende a John Key, líder do Steppenwolf,
um bom dinheirinho em direitos autorais (nos Estados Unidos
isso funciona), pois não se pode pensar nem mesmo num
encontro de crianças ciclistas sem que Born to
Be Wild toque ao menos uma meia-dúzia de vezes.
Nessas duas primeiras faixas o disco registra a banda americana
em sua melhor forma. A força e a criatividade que o
Steppenwolf mostrava à época, o vocal bruto
de Key e as letras no limite da incitação à
liberdade garantiram ao grupo um lugar de destaque na cena
rock dos 60´s, feito nunca mais alcançado.
Em posição inversa à da aparição
no filme, o disco traz como terceira faixa a balada The
Weight. No cinema, a gravação que acompanha
um pôr do sol na famosa paisagem de Monument Valley
é tocada pelo versátil grupo The Band, que acompanhava
Dylan, mas no disco foi incluída uma gravação
com mais groove e piano mais presente de uma obscura banda
californiana chamada Smith. De qualquer maneira, o clima de
fuga para algum lugar livre de infortúnios está
garantido. Os Byrds comparecem na quarta faixa com Wasn´t
Born to Follow, mostrando a música inventiva,
de ritmos fundidos, que tornou o grupo de Roger McGuinn o
mais importante da América do Norte nos anos 60, quando
foram um dos responsáveis pela explosão do country
rock, além de serem pioneiros do folk rock.
If You Want to Be a Bird, com The Holy Modal Rounders,
é uma valsinha tocada à capela, onde se sobressaem
uma pianola e o canto esganiçado. Trata-se de um comentário
musical jocoso a uma das cenas mais engraçadas do filme:
o passeio do personagem George Hanson (Jack Nicholson) viajando
de braços abertos na carona de uma das motocicletas
com um capacete de jogador de futebol americano mal encaixado
na cabeça. Na continuação, o disco traz
o country Don´t Bogart Me, com o grupo The
Fraternity of Man fazendo um chamado à solidariedade
entre os apreciadores da marijuana. Jimi Hendrix surge na
faixa sete com If Six Was Nine, e traz toda a imprevisibilidade
de seu gênio para o disco, fazendo a guitarra soar hora
como uma baleia arrependida, hora como uma goteira, hora como
um exército em marcha, até se desmanchar numa
declaração de compromisso incontestável
com o tema do filme, o que elevaria a música à
condição de "clássico Easy Rider".
O
Electric Prunes, uma das bandas que formavam a psicodelia
L.A Sound, aparece com Kyrie Eleison Mardi Gras,
em que a atmosfera soturna, os jogos vocais sacros e as guitarras
abelhudas (entrecortadas por falas dos personagens e sons
de rua da festa Mardi Gras, de New Orleans), pavimentam
a estrada para uma viagem interior, quem sabe mesmo uma bad
trip de ácido, como no filme. O bardo do desencanto
com o sonho americano, Bob Dylan, é autor de It´s
Alright Ma (I´m Just Bleeding). Com esta gravação,
Roger McGuinn volta às raízes, cantando sobre
um violão dedilhado com velocidade quase flamenca e
acompanhamento de harmônica parte da longa crônica
escrita em 1965 por Dylan, em que este contrapõe o
indivíduo aos jogos cínicos das autoridades,
da igreja e da sociedade de consumo para enredar a todos numa
teia de comprometimentos. A música acaba com um ronco
de motocicleta sendo silenciado por duas explosões.
É também o cantor dos Byrds em gravação
solo que encerra o disco com outra balada folk. Ballad
of Easy Rider, gravada num álbum do grupo no mesmo
ano de 1969, é introduzida com violão e harmônica,
a partir do que, novamente sobre uma lírica dylanesca,
MacGuinn passa a enfatizar com insistência a necessidade
que os homens têm de ser tão livres quanto rios
que correm para o mar.
Então tá! Sendo esta a mensagem, ponha o disco
no cd player, "roll another one" e boa viagem, mas
cuidado com as caminhonetes.
Carlos Dias Lopes é jornalista, músico e motociclista
Serviço: Easy Rider - Sem Destino
Autor: Vários Artistas
Ano de Lançamento: 2004
10 músicas
Preço médio: R$ 40,00 |
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